Modelo de Ensino Atual x Criatividade

Recebi de uma amiga querida o link de uma palestra maravilhosa da TED, com Ken Robinson, falando sobre como as escolas, mais precisamente o ensino público, acabam com a criatividade.

Eu fui professora, inclusive na rede pública de ensino, durante muitos anos e, quando vi o tema, pensei: que bom que alguém está falando sobre isso para milhares de pessoas porque isso é, realmente, um problema. Cada vez mais educamos crianças para fazer parte do sistema, nunca para serem elas mesmas e isso me deixa profundamente preocupada…

Bom, um dos pontos de vista que me chamaram a atenção na palestra foi que precisamos preparar as crianças que estão entrando na escola agora para um futuro sobre o qual nada conhecemos. E como fazer isso??

A resposta de Ken – com a qual eu concordo em gênero, número e grau – é: precisamos investir no desenvolvimento da criatividade, tanto quanto investimos em alfabetização!

As crianças são criativas por natureza, espontâneas, não tem medo de errar! Tudo para elas é novo, cada minuto da vida é uma descoberta, e elas se viram muito bem, não é? Além de acharem resposta para tudo, ainda se divertem!!

Mas, infelizmente, as escolas estão no caminho contrário, pois continuam mantendo um modelo de educação que valoriza a inteligência acadêmica, concebido antes do século XIX para atender à demanda da industrialização, onde as matérias principais eram aquelas necessárias para esse tipo de trabalho (mecânico, automático). Funcionava muito bem naquela época, mas agora está absolutamente defasado e, mais do que isso, desconectado da nossa realidade.

Voltando ao modelo, Ken nos diz que todas as escolas do mundo tem a mesma hierarquia de disciplinas: no topo matemáticas e línguas, depois as humanas e, por último, as artes. É um fato que as escolas não ensinam dança na mesma proporção que ensinam matemática. E por que não? Todas as crianças dançam! E nós também, certo? Afinal, todos temos corpos! Mas, chega um momento em que começamos a educar as crianças da cintura para cima, e aí focamos na cabeça, e levemente para um dos lados. Conclusão: criamos indivíduos que vivem em suas mentes e seus corpos servem somente como meio de transporte para suas cabeças pensantes (soa familiar para você??).

Mas vivemos em uma época em que pensar, somente, não adianta. Vivemos em uma época em que diplomas, somente, não garantem um emprego, que dirá, sucesso na carreira. E nem me atrevo a falar em realização…

Ken acredita, e eu de novo concordo em gênero, número e grau, que precisamos reconstituir a dádiva da capacidade humana encarando nossa capacidade criativa pela riqueza que ela representa e nossas crianças pela esperança que elas representam e nossa tarefa é educá-las em sua totalidade, preparando-as para esse futuro.

Eu, particularmente, tive a sorte de ter pais que apreciavam artes e me colocaram nesse caminho desde cedo. Fiz muitas aulas de artesanato (pintura em madeira, tecido, cerâmica, pirogravura, bonecas porcelanizadas) na infância, acordava no domingo de manhã ao som de orquestras, ou boleros – com meus pais dançando na sala, meu avô paterno – e alguns dos meus tios também se arriscavam – era músico (maestro, compositor e tocava vários instrumentos), minha mãe e avó materna cantavam no coral, eu fiz jazz e teatro na adolescência… enfim, creio que tudo isso colaborou para que eu mantivesse um pouco da minha criatividade e espontaneidade de criança, o que me salva, muitas vezes, do peso do cabeção porque, sim, eu também sou fruto desse sistema educacional, mesmo tendo estudado a maior parte do tempo em escolas particulares e boas.

Então, se você tem filhos em idade escolar e não pode ou não quer, por qualquer motivo, mudar o sistema (matriculando-os numa escola com pedagogia Waldorf, por exemplo), pense em proporcionar a eles algo mais. Arte, música, dança podem ser atividades extra classe muito prazeirosas e trazem às crianças um desenvolvimento mais integral, o que vai ajudá-las a serem mais felizes e ainda vai contribuir para que sejam profissionais mais aptos a lidarem com o futuro das organizações.

E se você é um cabeção ambulante – assim como eu – não pense que tudo está perdido! Hoje tenho um projeto “desligar o cabeção para ter uma vida saudável e feliz” e venho resgatando velhos hábitos, como o jazz, que faz enormemente bem para o meu corpo, para a minha alma e para o meu cabeção também…

Então, mexa-se! Dance, pinte, toque um instrumento e não se preocupe com o talento, o dom, a criatividade… Entregue-se de corpo e alma e tudo o mais simplesmente vem!!

Beijos dançantes!

Assista a palestra em:

http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html?source=email#.UE932Klyr5R.email

7 ideias sobre “Modelo de Ensino Atual x Criatividade

  1. Adorei sua leitura do Ken, Fla! Precisamos lembrar disso cada dia em que acordamos. Da Ana, outra cabeçona em busca de maior equilibrio…

  2. Flávia. Muito bom e verdadeiro seu Post. A criatividade deve ser estimulada sempre. Aos adultos,quer pais, tios, professores, cabe ainda a necessidade de se ter paciência para ouvir, para deixar a criança contar do seu jeito a história do seu dia, de desenhar e pintar seus desenhos como queira e goste, de dançar livremente…Não podemos interromper,corrigir, abreviar, ou interferir… pois a frequência disso gera a insegurança (não estou agradando, pois me interrompem, me corrigem…) e a espontaneidade vai embora…
    Bjs.

  3. Flávia, querida! Também compartilho com você esta opinião: nossas escolas não deveriam jamais interromper ou podar o impulso criativo das nossas crianças. Na verdade, o que vemos é um modelo educacional que “engessa” as mentes infantis, oferecendo modelos prontos ou pré-determinados.
    Resultado: jovens e adultos desmotivados, sem imaginação (até para lidar com as crises), sem saber lidar com situações diferentes e oferecer uma saída criativa para as crises.
    Bora lá botar o cabeção para rebolar um pouco!!!
    Adorei o texto!
    Um grande beijo!

  4. Flávia querida! Que lindo e importante o que vc escreveu. Para deixar os pais com o cabecao rodando. Vou mandar para o Pedro e Karina. Obrigada pela reflexao. bj

  5. Flávia, muito interessante a sua abordagem neste texto. De fato, esse futuro que não conhecemos exigirá, e muito, esse pensamento “out of the box” que hoje o mercado de trabalha já valoriza, mesmo que ainda meio sem jeito. Meu único ponto é que creio que a criatividade é livre, não pode ser moldada. Já fiz algumas aulas e “oficinas” de criatividade no passado que no fundo eram exercícios de relaxamento e exercícios para estimular a quebra de padrões. E padrões são estabelecidos pela aprendizagem formal, pela sociedade e pela educação em casa. Por isso acredito que a escola pode sim criar um ambiente mais fértil à criatividade, mas é em casa que os pais e cuidadores devem incentivar a exploração, a imaginação e a liberdade de expressão. Os pais são os principais responsáveis por não criar estímulos em excesso para proporcionar o “ócio criativo”, minimizar a participação de artifícios mecânicos em prol da experiência manual em brincadeiras e interações e não ceifar a fantasia, transformando-a em uma semente poderosa para sobreviver à realidade :) Beijos e continue nos trazendo essas mensagens!

    • Karina, super concordo com você. Acredito mesmo que nada, em nenhuma instância, exime os pais de sua responsabilidade por educar e preparar seus filhos para a vida, o mundo, o futuro e, mas do que tudo, para serem eles mesmos. Obrigada por seu comentário!

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